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  Goiânia, 5 de janeiro de 2009
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Educação para Igualdade entre Mulheres e Homens:
um Desafio para Professoras e Professores

Índice

» A Construção de Homes e de Mulheres 
» A Escola
» Para se Construir uma Educação não-sexista na Escola
» Combatendo o Sexismo
» O Significado dos Conceitos
» Referências Bibliográficas
» Para que ninguém quisesse

Para que ninguém a quisesse
Marina Colasanti

Porque os homens olhavam demais para a "sua" mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, "sua" beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.

Agora podia viver descansado. Ninguém olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.

Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.

Um fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em "seus" dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.

Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.

Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.


COLASANTI, Marina. Para que ninguém a quisesse. In Contos de Amor Rasgados. Rio de Janeiro, Rocco, 1986. P. 111-2.