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Índice
» A Construção
de Homes e de Mulheres
» A Escola
» Para se
Construir uma Educação não-sexista na
Escola
» Combatendo
o Sexismo
» O Significado
dos Conceitos
» Referências
Bibliográficas
» Para que
ninguém quisesse
Para que ninguém a quisesse
Marina Colasanti
Porque os homens olhavam demais para a "sua" mulher,
mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se
pintar. Apesar disso, "sua" beleza chamava a atenção,
e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse
fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou
as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias.
E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia
à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os
longos cabelos.
Agora podia viver descansado. Ninguém olhava duas
vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um
gato, não mais atravessava praças. E evitava
sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se
dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos
cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
Um fina saudade, porém, começou a alinhavar-se
em "seus" dias. Não saudade da mulher. Mas
do desejo inflamado que tivera por ela.
Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de
seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para
enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava
mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu
o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita,
enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.
COLASANTI, Marina. Para que ninguém a quisesse. In Contos
de Amor Rasgados. Rio de Janeiro, Rocco, 1986. P. 111-2.
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